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Você é esse homem

Você é esse homem

Dois homens viviam numa cidade, um era rico e o outro, pobre. O rico possuía muitas ovelhas e bois, mas o pobre nada tinha, senão uma cordeirinha que havia comprado. Ele a criou, e ela cresceu com ele e com seus filhos. Ela comia junto dele, bebia do seu copo e até dormia em seus braços. Era como uma filha para ele. Certo dia, um viajante chegou à casa do rico, e este não quis pegar uma de suas próprias ovelhas ou de seus bois para preparar-lhe uma refeição. Em vez disso, preparou para o visitante a cordeira que pertencia ao pobre”.

Esta foi a parábola que o profeta Natã contou a Davi, logo após o rei ter cometido o pecado de adultério e homicídio. Até aqui, ela fala de injustiça, avareza, exploração social e poder desmedido. Davi, do alto de sua fúria e investido de sua autoridade real, determina que o homem que cometeu tal ato seja morto. Natã, então, sentencia: “Você é esse homem”. A partir daqui a história é outra e passa a falar de gente que não consegue se enxergar, se perceber, olhar para dentro e ver suas próprias mazelas. Talvez, imitando Davi, nós também nos admiremos e, quem sabe, até nos indignemos ao ver tanta crueldade sendo praticada ao nosso redor. Talvez, sejamos nós mesmos vítimas de muitas crueldades e, por causa disso, soframos tantas dores.

Mas, e quando a situação se inverte? E quando somos nós os causadores da dor do outro? E quando somos nós a ocuparmos o lugar do algoz, daquele que imprime a dor do outro? Será que conseguimos nos enxergar nesse lugar? Essa tem sido a maior dificuldade que tenho percebido ao lidar com “gente”: a dificuldade de um olhar para dentro de si, de exercer uma autocontemplação, de fazer um movimento de introspecção.

É comum ouvirmos as queixas de um cônjuge em relação ao outro. Da mesma forma, é comum ouvirmos amigos reclamando de amigos, irmãos falando de irmãos, liderados se queixando de líderes, e por aí vai. O contrário, porém, não é tão comum assim. Não é comum assumirmos nossas culpas, nossas responsabilidades, nossos erros, nossas falhas, nossas limitações. E, por não ser comum, não crescemos como pessoas. E, por não crescermos como pessoas, não crescemos no relacionamento com o outro. Seria muito bom se não precisássemos ouvir do profeta: “Você é esse homem”. Isso nos livraria de acusações e condenações e nos colocaria no caminho do conserto, da reparação.

É preciso se perceber assim, como “esse homem”, capaz de condenar o outro e de não se reconhecer nele. “Você é esse homem”, que deseja punir o outro, mas não consegue se autocorrigir. “Você é esse homem”, que aponta para os erros alheios, mas não consegue evitar os seus próprios. “Você é esse homem”, tão crítico com aquilo que vem de fora, mas tão complacente com o que vem de dentro.

Todos nós carregamos “esse homem” dentro de nós. A não ser pela assimilação de um olhar de graça, será com os “seus olhos” que enxergaremos o mundo e as pessoas e contribuiremos negativamente para uma sociedade ainda mais feia e relacionamentos ainda mais adoecidos. Que o Senhor nos livre “desse homem” e nos batize com um olhar de ternura, graça e misericórdia.

Com amor,

Pr. Carlos Henrique.

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